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Entrevista: André Franco Montoro Filho fala sobre ética nos negócios


O economista André Franco Montoro Filho, presidente do ETCO - Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial e ex-presidente do BNDES, esteve em Curitiba em Agosto a convite da Unindus, como palestrante da Oficina de Inteligência Competitiva. Em sua palestra Montoro Filho abordou a importância das relações éticas nos negócios e como a falta da ética é prejudicial. "Se cada um que sonega, falsifica, trabalha na informalidade, faz contrabando e pirataria soubesse quais são as conseqüências para a economia e para sua empresa, com certeza mudaria de atitude", disse. Conheça mais um pouco sobre a ética nos negócios na entrevista que o economista deu para a Newsletter da Unindus deste mês.

Onde e quanto começa a ética nos negócios e como ela se caracteriza?

A ética tem que nascer com a empresa. O que caracteriza a ética nos negócios é a concorrência leal que se traduz em respeito pela legislação vigente seja ela tributária, fiscal, trabalhista, previdenciária. O desrespeito a essas regras gera um desequilíbrio, um desvio de concorrência, beneficiando sonegadores. No Brasil esse tem sido um problema muito sério devido à alta carga tributária.  Por isso, o ETCO foi criado com a missão fundamental de entrar nessa luta através de campanhas e mecanismos para que se instale no Brasil a ética concorrencial e que se crie um bom ambiente de negócios, fundamental para o desenvolvimento da economia, da produção e para o país crescer.

Quais são as áreas mais atingidas pela falta de ética?

A vida em si requer regras de convivência. Mais ainda na área econômica, pois a atividade produtiva se faz ao longo do tempo. São muitos contratos e transações que precisam ser respeitados e apresentarem segurança jurídica. E a concorrência desleal caracterizada pelo não cumprimento das normas jurídicas gera um clima desfavorável à atividade produtiva e ao investimento. O que o ETCO procura fazer é lutar para que no Brasil se tenha as condições favoráveis para os negócios com segurança jurídica, respeito à legislação e é claro, boas leis, boas regras.

Os empresários alegam que a alta carga tributária prejudica a lucratividade e isso se torna justificativa para a sonegação. Como vocês trabalham com essa alegação?

Existe sim muita alegação nesse sentido e que é verdadeira. Nós nos propomos a estudar as causas da informalidade e do desrespeito à legislação. Claramente a carga tributária é um elemento que estimula, incentiva a informalidade e a sonegação. A burocracia do Estado é outro ponto que nós estudamos. A lentidão da justiça, a impunidade, são elementos que também colaboram. E em todos esses casos procuramos agir de alguma forma. Sabemos que são mudanças que levam tempo, que não acontecem da noite para o dia, mas que precisam ser feitas. E está havendo uma boa receptividade por parte do empresariado sim.

Desses fatores quais são os de maior impacto?

A sonegação e a informalidade são as piores e acabam prejudicando a própria empresa. Esse tipo de atitude pode representar um desafogo, uma pequena vantagem momentânea, mas vivendo na ilegalidade a empresa não cresce. Porque para crescer a empresa precisa de mais capitais, empréstimos, e se não tiver seus registros, seus livros contábeis organizados não consegue financiamentos bancários, se for para o mercado de capitais, não consegue sócios.

Então a informalidade acaba sendo um obstáculo para o crescimento. E essa observação eu tenho ouvido de empresários. E também tenho ouvido sobre a tentativa de algumas empresas de fazer associações, e também empresas estrangeiras que procuram fazer associações no Brasil, se deparam com alguns setores que até então parecem como adequados, mas quando se examina: os livros são péssimos, a empresa não resiste ao auditor. Quando surge a oportunidade de dar um salto nos negócios está emperrado porque sonegou e esteve na informalidade. O pequeno empresário não leva em consideração isso, não toma consciência do problema está criando quando começa a sonegar. Quando ele começa, sonega um pouquinho, mas ele não pára no pouquinho. Então é muito difícil recuperar depois, e quanto antes começar esse processo de recuperação melhor, porque é para ter futuro.

Como o Brasil é visto lá fora? Essa imagem prejudica a imagem do mercado nacional?

Prejudica. A percepção é de que a potencialidade do Brasil é muito grande, que há muitas oportunidades de negócios, que se tem um mercado doméstico grande, uma série de características positivas e que passa certa segurança, pelo fato que aqui não haver guerras internas e problemas que atinjam diretamente o mercado que é grande, consolidado e sem rupturas. Mas, essa falta de ética nos negócios é obstáculo. As empresas que vêm para cá têm ações na bolsa de Nova Iorque e que têm todo um processo interno e externo de auditoria e, por isso, têm de fazer negócios com empresas sérias, que possam passar pelo crivo dos auditores e algumas vezes isso não ocorre. Então há um obstáculo nesse sentido. E em alguns setores você tem esse clima que não atraem investimentos. O investidor fala "Diante dessa problemática, vou investir em outro lugar". Apesar disso o Brasil tem recebido um grande volume de investimento, mas se reparar é sempre na área organizada e formal que recebe.

Qual é a gênese da visão de que no mundo dos negócios não existe ética?

Essa origem histórica circular é, talvez, uma visão cultivada por alguns processos que ocorreram, crises com o capitalismo no mundo e que foram exageradas e geraram essa visão negativa da atividade produtiva, mas que claramente não é uma visão generalizada. Existem alguns setores, aqueles mais de esquerda que pensam assim. Mas, felizmente não é uma idéia majoritária e eu acredito que no Brasil isso possa se reduzir, especialmente entre as novas gerações.

Como as pessoas podem manter essa ética diante desse cenário de corrupção política?

Claro que é um ambiente que favorece. No entanto, o que nós estamos procurando é exatamente aproveitar esse sentimento de indignação para despertar nas pessoas o senso da responsabilidade. A ética, o comportamento ético é um amplo processo. Então o que estamos procurando mostrar é que na verdade essa falta de ética tem manifestações em diferentes áreas, tem manifestações na área política, mas também no consumidor, que não pede nota fiscal. Então, você, se você quer mudar por que não muda você mesmo? Comece por você, seja uma pessoa que pede nota fiscal, que não compra produtos piratas e que é um defensor desse comportamento. Então você vai ver que depois de algum tempo muita gente está ao seu lado, tomando essa atitude, e o resultado disso é mudar o Brasil e o mundo. Eu acredito que esse fenômeno pode acontecer no Brasil.

 




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